segunda-feira, 21 de junho de 2021

“Você é demais pra mim”


Querido amor eterno,        

         Todas as vezes que eu me recordo de suas palavras, eu sinto uma dor enorme. É difícil acreditar que foi assim pra você, quando eu achava que não era suficiente e não te merecia. É verdade que você tentou, que muitas vezes me esquivei e não fui clara. No entanto, também não ficou claro pra mim. Estávamos em tempos diferentes, muitos confusos e perdidos. Se houvesse um jeito de viajar no tempo, eu diria coisas que ficaram, e estão, entaladas na garganta. Se houvesse um jeito de ser diferente, eu te daria todo o amor que guardei e guardo. Porque você nunca saiu do meu coração e dos meus pensamentos. Você vai ser eternamente o homem certo pra mim, aquele que o órgão mais importante do meu corpo escolheu amar. Desculpe se não pude externar isso antes. Desculpe se eu fugi, se não te entendi, me entendi e nos entendi. Desculpe pelo tempo confuso e todos os desencontros. Não queria que fosse assim.

 E quando eu penso naquele último dia que te vi, naquela festa em que nos beijamos pela última vez... Dói, muito. Te beijar, sempre foi bom, gostoso e único. Mas te beijar pela última vez é uma dor que meu coração não aguenta recordar. Já o primeiro, aquele com sabor de abacaxi, me faz arrepiar, me traz um sentimento gostoso, me aquece. No entanto, houve o último. Rápido demais, breve demais. Não foi suficiente. Poderia ter a duração que for, poderiam ser horas, mas nunca seria suficiente. Porque eu não queria que houvesse um último.

Ainda pior que pensar nesse beijo, é pensar em suas palavras, naquela frase que me destroça por completo. Um turbilhão de pensamentos e sentimentos tomam conta da minha mente e do meu coração quando eu lembro de você já levemente bêbado, após aquele último beijo, me encarando, com aqueles olhos castanhos intensos... Você simplesmente respirou fundo, olhou pra mim e disse: “Nossa! Você é demais pra mim”. E se foi. Dói demais. Por alguns instantes eu tive que parar. Então pensei: “Ele disse mesmo isso?”. Difícil de acreditar, de entender.

Já em casa, com seu rosto, seu beijo e sua voz em meus pensamentos, eu pude raciocinar direito e entender o que aquela frase poderia querer dizer. Posso estar errada, mesmo quatro anos depois. Posso ter entendido errado, não sei. Mas se for... Apenas dói. Eu quero que você saiba que eu nunca fui demais pra você. A verdade é que você foi demais pra mim. Eu queria te merecer, eu queria que desse certo. Mas você que era demais pra mim. Imaturidade, dúvidas... Não posso dizer agora, me faltam pedaços dolorosos da realidade. Mas não pudemos levar a nossa história pra frente e pensar que você sofreu, pensando que eu estava acima daquilo que você merecia, só aumenta a minha dor quando lembro que acabou. Eu preciso ter entendido errado. Talvez fosse um delírio seu devido ao álcool. Que seja isso. Tomara que seja simples. Porque não suporto a ideia de ser inalcançável pra você. Posso não ter sido acessível, devido às diversas questões que me bagunçaram, mas eu não era demais pra você. Pode ser que eu fosse de menos, por isso não pude ser a pessoa certa pra você. O fato, aqui, agora e sempre, é que você tem um pedaço do meu coração e, apesar de não ter dado certo, você é uma parte da minha vida incapaz de ir embora. Porque você é inesquecível. Você é uma parte de mim. Você é demais pra mim. 

De uma eterna arrependida.

sábado, 12 de junho de 2021

 

Olha eu aí, apaixonada mais uma vez


Querido amor perdido,         

          Eu costumava ter certeza de que estava bem. Eu realmente estava bem. Estar só, apreciar a minha própria companhia sempre foi algo muito bom e satisfatório pra mim. Ainda é, na verdade. Na maioria dos dias, estar apenas comigo é suficiente, é realmente bom. Mas ando pensando naqueles dias em que estive com você. Ando pensando, muito mais do que deveria e até gostaria. Antes que eu continue, deixa eu explicar o motivo de ter citado o “gostaria”. Você sabe como tudo desenrolou entre nós. Fui imatura, não estava pronta, não soube te preservar em minha vida. Não era o meu momento de estabelecer um relacionamento duradouro e comprometido. Por isso, eu não gostaria de me sentir assim. Não é justo comigo, com nós e, principalmente, com você.

E hoje, dia cheio de significados para os casais apaixonados, eu não guardo esse sentimento porque já está me sufocando. Eu sei, é errado, muito errado. Desculpe por isso. Meu tempo aconteceu muito atrasado e hoje eu estaria pronta, totalmente pronta, caso a situação fosse favorável como anos atrás foi. É, baita ironia da vida. Ironia da vida nada, na verdade. Baita confusão eu fiz com nossos sentimentos e momentos. Se eu tivesse pronta naquele ano... Quantas histórias incríveis, quantos beijos e carinhos compartilharíamos. Mas não adianta imaginar, porque a verdade é que eu não estava. Minha cabeça era confusão e dúvidas.

Meu coração sempre teve você. E por mais que algumas vezes tenha ficado adormecido aqui dentro, você nunca foi completamente embora. E hoje está mais vivo do que nunca. Não é imaturo como já foi, mas é fora de tempo, fora do nosso momento, aquele que eu não valorizei e não soube lidar. Agora restam as breves memórias, de momentos gostosos, mas poucos. Quem dera eu tivesse a cabeça de hoje nos dias de antes. Mais uma vez, não adianta imaginar e lamentar. É a vida, é o tempo. Com minhas mãos e atitudes, claro, mas ainda sim é a vida.

Agora estou eu aqui, mais uma vez apaixonada por você. Um sentimento gostoso e até leve, apesar das circunstâncias. Estou novamente entorpecida por esse sentimento de apreço e admiração, encanto e fascínio. De onde veio, como foi despertado, poderia dar mil e um motivos, ou talvez nenhum, mas de que importa? Estamos em instantes diferentes, apesar de sempre ligados por uma extraordinária linha de carinho mutuo. Talvez eu até esteja falando besteiras e você tenha me esquecido completamente. Isso seria bom e ruim. O ruim nem precisa de explicações. Por mais que eu desejo tudo de maravilhoso em sua vida, incluindo amor e muito amor, saber que eu não faço parte de nem um segundo dos seus pensamentos, não é gostoso. Já o bom é porque eu senti que te fiz sofrer. Quando a imaturidade não me permitia seguir adiante, você pode ter esperado mais do que eu fui capaz de dar. E isso dói. Imaginar que te fiz sofrer dói. Então, se você me esqueceu completamente, uma parte de mim chega a ficar aliviada.

Você sabe que você merece o melhor, a melhor pessoa. E, infelizmente, naquele momento, eu não pude ser aquela pessoa pra você. Não sei se no dia de hoje você tem alguém, mas espero que não te falte amor, mesmo que o seu mesmo. No mais, obrigada por existir e ser alguém que vai sempre despertar sentimentos tão bons em mim.   


quarta-feira, 1 de abril de 2020


Lista Aleatória

Mais um dia daqueles. Será longo, será puxado, muito cansativo. Um belo início de semana, mais uma não aguardada segunda-feira. Mas não posso negar que, apesar de não estar muito animada para mais um dia de trabalho, o dia em si está realmente lindo. É verão, mas não está muito calor. Os raios de sol atravessam a minha pele de forma serena, delicada. Me sinto abraçada, quase bem o bastante para me esquecer da reunião que terei à tarde. Não pensarei nisso agora, mesmo que esteja muito ansiosa para liderar a equipe pela primeira vez. A ideia é boa, fizemos um bom trabalho. O cliente vai gostar. Preciso relaxar. Olha ali. O Felipe, porteiro do meu prédio, parece muito relaxado. Logo ele que passa o dia inteiro fazendo de tudo um pouco. Não sei como ele dá conta. Será que ganha o suficiente para compensar tanto esforço? Eu duvido um pouco. Agora, por exemplo, ele está cuidando do jardim, que, inclusive, está admirável. É o único espaço bonito dessa enorme massa cinzenta onde eu moro. “Bom dia, Seu Felipe!”, digo. “Bom dia, Srta. Alice!”, ele responde com muito bom humor. Agradeço e vou em direção ao portão. Olha, mais um trabalho do incansável Felipe. Ele consertou o portão que estava rangendo. Balanço a cabeça e sorrio. Aquele homem não existe.
            A parte boa de morar aqui é a facilidade de acesso ao ponto de ônibus. Menos de dois minutos e já estou esperando a condução. Será um dia daqueles... Pra mim e para a moça ao meu lado, que não para de andar de um lado para o outro. Está preocupada. Talvez atrasada. Definitivamente atrasada e preocupada. Estranho, acho que ela é nova na vizinhança. Eu conheço praticamente todas as pessoas que saem para trabalhar nesse horário. Ela pode ter se mudado recentemente ou, simplesmente, ter mudado o horário de trabalho. Eu poderia me apresentar... Meu ônibus. E a rotina continua. Não vejo a hora de voltar. Tenho planos para a noite. Inesperado, eu diria. Não sou assim, mas vou correr o risco. Felizmente um lugar vago no ônibus. O trajeto não é tão longo, mas eu adoro sentar. Não posso ver um banco que meu corpo me puxa. Ótimo, hoje não esqueci o fone de ouvido. Vou poder me distrair. A reunião, a noite diferente, muita coisa na cabeça.
            Coloco o fone, dou o play. Opa, lista aleatória. Estou tão acostumada a escutar as mesmas músicas, a mesma sequência. Eu gosto da minha rotina, me sinto bem assim. Então cliquei sem querer no aleatório. Nunca faço isso. Mas já foi. Vamos ver o que me espera. Ah! Conheço a música. Muito tempo sem escutá-la. Mas lembro de gostar bastante. Sinceramente, não sei se gosto da mesma forma... Bom, é gostosa. Tem um começo lento, palavras bem destacadas. É delicada, mas é forte. Ah! Eu gosto sim. A melodia me faz sorrir involuntariamente. Eu gosto sim. Me faz ter a mesma sensação de calor quando eu estava sob o sol. Eu gosto muito. Surpreendente. O aleatório pode ser surpreendente. Não queria. Por escolha própria não teria clicado no aleatório. Gosto de controle. O inesperado nem sempre funciona pra mim. E assim será a noite, incerta. Estou nervosa. Mas a música... Ah! A música. Minha mão toca a janela no ritmo da música. Um dos meus pés batem no chão na tentativa de completar o ritmo. Minha cabeça está doida pra balançar de um lado para o outro. Devagar ela se entrega a música. A melodia cresce. O ritmo aumenta. O refrão começa e eu preciso segurar as palavras dentro da boca. Um som começa a sair mesmo com a boca fechada. Sorrio. Estou inundada pela música. Os meus movimentos não estão mais sob controle. A música me leva a uma sensação deliciosa, inesperadamente boa. Meu corpo encontra seu ritmo em movimentos involuntários. Não ligo. Não mais. É muito bom. Olho ao meu redor. Acho que ninguém me observa. Canto o refrão final. A minha voz não sai, mas pronunciar a letra com os lábios já é suficientemente satisfatório. Me entreguei completamente. Não esperava que uma simples música no aleatório poderia me fazer tão bem. Devagar, no seu ritmo me conquistou e tomou conta de mim.
            Assim como o inesperado amor. E que amor! Sorrio calorosamente. Devo parecer uma boba. Eu estou tão acostumada a ter tudo bem definido, sob o meu controle... Totalmente inesperado. Eu nunca tinha ido à um encontro às cegas. Tinha pavor. Pavor da ideia de não ter controle da pessoa que poderia fazer parte da minha vida. Me dava medo. Ainda dá. Eu sempre tive encontros e conheci pessoas, romanticamente falando, por inciativa própria. Me dava muito medo deixar outra pessoa “escolher” por mim. Mas de forma inesperada me rendi. Da mesma forma que aceitei continuar com a lista de músicas no modo aleatório. Aceitei ir a um encontro às cegas. Me surpreendi. E de lá pra cá continuo me continuo me surpreendendo todos os dias. De uma forma boa, com certeza. Ainda tenho medo, mas quero continuar e descobrir até onde podemos chegar com esse amor. Um amor que vem crescendo. Chegou de forma inesperada. Foi devagar, delicado, mas forte e intenso. Com seu ritmo foi me cativando, tomando conta de cada parte do meu corpo, assim como do meu coração. Tenho medo, mas não o bastante para me fazer desistir dele. Porque ele é incrível, único e parece muito certo. Eu não esperava, não escolhi. Mas me abri e me deixei envolver. E hoje não tenho vergonha de dizer que estou amando. Eu não precisava, estava bem. Mas hoje escolho continuar. Ele não completa. Ele soma. Ele expande e deixa tudo ainda mais lindo e repleto de cor. Ele incendeia meu coração. Eu o amo. Eu o amo! Surpreendentemente, inesperadamente e intensamente. Eu amo.
Minha melhor amiga e parceira de trabalho me vê e me espera. “Bom dia, Alice!”, ela diz. “Bom dia, Júlia! Estou nervosa. Será que eles vão gostar de mim?”, digo. Estou realmente ansiosa com a noite. “Meus tios vão amar você, assim como eu e o Leonardo te amamos”, ela diz e eu sorrio. Eu amo o Leonardo. Muito. “Meu amor aleatório”.

sábado, 9 de fevereiro de 2019


Dia favorável para encontrar o amor
           
Olívia é a pessoa mais otimista e romântica que você pode esbarrar por aí. Ela tem levado a vida sempre com leveza e acreditando que coisas maravilhosas podem acontecer para quem acredita. Olívia também fica triste, briga com as pessoas (principalmente com sua vizinha que não para de cuidar de sua vida) e passa por momentos ruins. Mas ao final do dia ela repete para si mesma que não vai carregar a carga do dia para o dia seguinte. “Nada para o dia seguinte.”, ela repete inúmeras vezes. E isso não acontece somente com as coisas ruins, com as boas também... Olívia é decidida. Talvez mais teimosa do que decidida. Quando cisma com uma coisa não sossega até resolver aquilo, ou pelo menos tenta. Porque “tentar” é o verbo número um da sua lista de ações. Seu jeito extremamente otimista acaba dando a ela uma aparência de louca. E ela se importa com isso? Nem um pouco. As pessoas estão enganadas? Também não importa, a Olívia não se importa com essas besteiras de julgar as aparências. Ela vai continuar acreditando que ser otimista vale mais a pena e que gastar o tempo avaliando o outro e a forma com ela leva a vida não faz sentido. Por isso ela continua vivendo... Leve e intensamente.
Por mais que ela tente, às vezes fica complicado não carregar o dia anterior para o dia seguinte. E quando isso acontece, ela costuma passar um dia bem atípico, com a expressão séria e carregada. As pessoas continuam a achando louca e ela continua não se importando. Mas se a vizinha fala alguma coisa... Aquela mal humorada do apartamento ao lado vai escutar muito mais do que falou. Olívia não entende por que aquela mulher não gosta dela. Uma vez pensou até em se mudar, estava bastante chateada. Queria viver sua vida como sempre e não se chatear com alguém inexplicável. Por isso, na noite anterior ao dia de hoje, resolveu que nunca mais iria trocar uma palavra com ela, que iria fingir que ela não existia. Ignorar seria seu segundo verbo de ação. E assim ela poderia tentar ficar tranquila. Mas sabemos que essa ideia não veio do nada. Olívia descobriu o poder desse verbo recentemente. No seu trabalho existe um homem bem interessante aos olhos daquela romântica otimista. Algo surgia entre eles, ela se via meio apaixonada. Mas aquele homem “era louco”, ela dizia. O que parecia ter futuro desmoronou. Olívia se via presa em seus olhos, na sua voz atraente... Mas ele não é um bom ser humano de verdade. Não era recíproco. Ele a ignorava com tanta frequência, que a pequena otimista começava a duvidar do poder de uma mente positiva. Ela começou a se perder depois que conheceu o verbo “ignorar”. Dormiu triste, se sentindo perdida e fora de si mesma.
Acordou estranha, com um desejo arrebatador de reencontrar a verdadeira Olívia, aquela de sempre, romântica, otimista e feliz. Ela queria isso com tanta força e intensidade, que apesar da carga do dia anterior que ainda a perseguia, conseguiu reunir uma animação incrível para ir atrás da sua essência. E depois que percebeu que ainda havia força para levantar, ela se sentiu muito sortuda. “Meu dia de sorte.”, disse em voz alta enquanto tomava banho. Começou a cantarolar, dançar... Parecia se renovando. E de repente se deu conta de que o Senhor Ignorante não era assim tão importante, ele nunca foi o amor da sua vida. “Hoje vou encontrar o amor da minha vida.”, ela falou numa voz ainda mais alta. Quem a visse naquele momento, falando aquilo com tanta convicção, a acharia ainda mais louca. Olívia estava mesmo decidida a sair de casa e seguir um roteiro favorável para esbarrar com o amor da sua vida. Ninguém precisaria falar que ela estava louca, ela mesma disse isso para si mesmo. Mas a loucura a deixava bem e feliz. Então estava certo, e ela seguiu o seu rumo, depois de tomar um café da manhã caprichado e delicioso (ela via na comida um prazer incrível, tanto no preparo quanto no consumo).
O dia era mesmo muito favorável para fazer aquela loucura. Sol na medida certa, não esquentava demais, mas deixava o dia iluminado e com um brilho apaixonante aos olhos dos românticos. Olívia pensou que a corrida rotineira deveria ser feita num lugar diferente. Já eram muitos anos correndo no mesmo lugar, que ela não acreditava que o amor poderia estar lá. Mas uma mudança de lugar poderia mesmo fazer muito sentido. “Logo o dia que eu decidir vir aqui te encontrei.”, ela simulou um pensando. Riu de si mesma e começou a percorrer o trajeto correndo ao som de uma trilha apaixonada. Ela também pensou nisso, porque seria bom ter uma música para chamar de sua. Três quilômetros depois ela sentou num banco e balançou a cabeça inconformada. Ela não esbarrou com ninguém. O mundo parecia vazio. Mas isso não a desanimou. Um quilômetro depois ela finalmente vê alguém. “Não tem muito a cara do amor da minha vida. E amor tem cara?”, ela começou a pensar. Diversos pensamentos acerca da aparência do amor prenderam a sua atenção que ela acabou se desligando do seu entorno. Aquele alguém sumiu. “Como fui deixar isso acontecer?”, disse chateada. “Aconteceu porque não era o amor da minha vida.”, concluiu.
Tomou o caminho de volta pra casa e dessa vez fez questão de ficar mais atenta. Conheceu casais que estava há anos juntos, conheceu casais que acabaram de se conhecer. Ela nunca tinha se deparado com tantos casais num dia só. Parecia algum tipo de sinal. Para algumas pessoas poderia ser um sinal negativo, já para ela era super positivo. Ela acreditava que aquilo não era atoa, era como se a vida estivesse falando pra ela continuar a missão, porque existem vários amores, inclusive um amor pra ela. De repente o mundo pareceu grande e cheio. Cheio de possibilidades e pessoas. Em casa tomou mais um banho e decidiu que não iria fazer almoço, como sempre fazia aos sábados. Iria almoçar fora. “Um restaurante parece um bom ambiente para encontrar o amor.”, pensou. E seriam dois prazeres unidos, ela imaginava. Alguns dos casais que ela já esbarrou se conheceu em ambientes envolvendo comida. “A vida sabe que eu gosto de comer, pode estar preparando esse encontro pra mim.”, disse enquanto saia novamente de casa. Também imaginou, várias vezes, durante as diversas paradas que fez nos semáforos, que seria um bom lugar para encontrar o amor da sua vida. Imaginou-se cantarolando uma música animada enquanto estava parada e de repente olhava para o lado e via alguém que despertava a sua atenção. Ela olhou mesmo para o lado, sem cantar, e ninguém mais deixava os vidros abertos. Olívia não conseguia enxergar ninguém pelo vidro. “Desse jeito ninguém vai me notar.”, disse brava. Uma vez pensou ter ouvido uma buzina. “Poderia ser pra mim.”, finalizou.
Chegou ao restaurante com uma sensação estranha e confusa. Poderia ser uma premonição? Sim, ela imaginou que fosse. Mais tarde descobriu que era uma sensação de tempo perdido. Ela passou o trajeto inteiro imaginando coisas, mas não fez o que mais gostava de fazer ao volante, que era cantar. Estava decidida que no trajeto de volta não iria procurar o amor no trânsito. “Ninguém presta a atenção mesmo. Todo mundo tem tanta pressa, não abre os vidros...”, avaliou. Ela iria fazer o que costumava fazer, o que a deixava feliz e animada. O almoço foi maravilhoso, mas exagerou na quantidade. Sentia-se pesada, parecia que iria explodir. E nada de amor no restaurante. Pelo menos aquela saída não foi em vão. Ela aproveitou bastante a comida e o ambiente, que tinha até música ao vivo. Algumas vezes se viu trocando olhares com uns rapazes que estavam sozinhos no restaurante. Não sentiu nada de especial, se sentiu meio boba, na verdade. Acabou rindo da situação e por um segundo pensou que aquilo era uma loucura exagerada. Um segundo mais tarde confirmou que era uma loucura, mas que também não podia desistir. Apesar de qualquer coisa, a tentativa a fazia bem. Não sabia se ia dar certo, não tinha certeza. Mas sabia que uma hora ou outra uma coisa boa aconteceria.
Lembrou de casais que se conheceram em parques, praças... Limpou a mente e fez o trajeto de carro cantando suas músicas preferidas. Chegou ao centro da sua cidade, e se sentou num banco bem no meio daquela praça enorme. Estava cercada por inúmeras pessoas. Mal dava conta de acompanhar todo aquele movimento. Passou mais de uma hora se divertindo com o intenso fluxo de pessoas e se esqueceu um pouco de sua missão. “Ah!”, lamentou em voz alta quando se deu conta. Começou a rir intensamente. Foi um momento de esquecimento não tão ruim. Ela via beleza naquelas faces vermelhas apressadas, no acelerar da respiração, nas vozes que se misturavam em meio à multidão... Ela via beleza no simples trajeto daquela mãe cuidadosa, que levava um lenço sujo se sorvete de chocolate até o lixo. Poder sorrir com coisas cotidianas às vezes era melhor do que ficar gastando a mente com a procura. “O amor vai chegar, o dia é de sorte e eu só preciso facilitar, não forçar.”, pensou e continuou admirando o seu entorno. Então percebeu que apenas estar em condições e lugares favoráveis já dava abertura para o amor. “Eu estou aberta, eu estou pronta pra você.”, disse em pensamento. Ela não perderia mais as diversas belezas para uma ficção única. Já estava escurecendo quando ela saiu daquela praça. Viu sim pessoas interessantes, mas nada do amor. “Eu não estou olhando direito?”, se questionou, mas não ficou chateada como quando terminou a corrida ou saiu do restaurante.
A Olívia de sempre estava viva e presente naquele ser humano cansado do dia. Um ser humano que chegava a na porta do prédio onde morava com um sorriso no rosto. O dia ainda não tinha acabado. A noite era imensa e o amor ainda poderia chegar. Ela só precisava pensar num lugar. Antes que mais ideias surgissem, ela encontrou a vizinha mal humorada. Ia seguir o plano e ignorá-la. Mas a expressão triste dela chamou sua atenção. Algo a cutucou e a estimulou ir até ela. A vizinha estranhou aquilo, mas não parecia querer discutir. “Eu sei que nós brigamos algumas vezes...”, Olívia começou a falar, mas um pensamento bem claro passou em sua mente. Ela sorriu. “Desculpa, Andrea. Nós brigamos algumas vezes, mas acabei de lembrar que sempre brigamos por besteiras. Mal dou conta de lembrar os motivos. Isso só pode querer dizer que somos idiotas. A sua expressão diferente hoje me chamou a atenção e fiquei mesmo com vontade de saber o motivo da sua tristeza. Não quero saber porque quero ficar feliz com isso, mas sim porque me importo. Independente de qualquer coisa, você faz parte da minha rotina. É minha vizinha. Moramos há tanto tempo uma do lado da outra. Porque continuar brigando sem motivos?”, Olívia falou e a Andrea sorria. Parecia também se dar conta dos longos meses perdidos para as idiotices das duas. “Podemos nos conhecer de verdade? Pelo menos teremos motivos reais para brigar.”, ela sugeriu. “Ou não teremos motivos. Também não sei o que nos motivava, Olívia, mas sinceramente não preciso saber. A vida é tão curta e tão longa. Podemos nos conhecer sim. E acho que já começo a gostar de você. O dia tem sido tão ruim... Você era a última pessoa que eu imaginava levantando a minha animação.”, Andrea falou.
E nesse dia a otimista Olívia cumpriu a sua missão. Não a de ignorar a vizinha mal humorada, mas a de encontrar o amor. A Andrea não era o amor da sua vida. Mas descobriu nela uma pessoa muito agradável. Passaram horas rindo e se conhecendo de verdade. Tanto tempo morando tão perto e tanto tempo tão distantes. O melhor para aquela amizade que começava era esquecer um passado inexplicável e sem sentido. O melhor pra qualquer relação sempre foi esquecer uma coisa que não contribuía positivamente para a sua vida, assim a Olívia imaginava. E aquela garota otimista e romântica estava completamente de volta. “Ignorar” não seria mais o seu segundo verbo. Nada que uma boa conversa... E ela sabia que o Senhor Ignorante também descobriria isso em breve. Sua próxima missão envolvia ser clara com seus sentimentos e pensamentos, envolvia ser sincera com quem a tinha feito pouco bem. O dia de sorte, afinal, poderia ser estendido. E encontrar o amor poderia ser uma missão diária. Encontrar os amores. Mas para uma romântica incorrigível, “aquele” amor também seria o mais aguardado. “Vamos facilitar para os amores.”, Olívia pensou ao final do dia. Olívia vai continuar sendo otimista demais, feliz e louca aos olhares externos. Olívia vai continuar se importando apenas com quem se importa. “Um pouquinho de loucura consciente não faz mal, né?! Ser feliz vale a pena.”, ela escreveu numa mensagem enviada para a vizinha e mais nova pretendente a amiga.
Poucos segundos restavam para aquele dia terminar. Segundos separavam a mente agitada da Olívia do descanso. Ela estava quase apagada de sono quando a campainha tocou. Seu coração deu um pulo de susto e ela saltou da cama junto com um xingamento bem feio. Era tarde demais para uma visita. Perguntou, com a voz sonolenta, pelo interfone quem era. Perguntou uma segunda vez, não estava entendendo nada. “Sou seu novo vizinho. Perdi a chave.”, a voz disse e ela destrancou o portão e foi se deitar. Minutos depois batem na porta. E mais uma vez ela se assustou e saiu dando passos pesados pelo apartamento. Abriu a porta e seu coração deu um pulo ainda maior. O sorriso sempre encantador da pequena otimista apareceu e ela se deu conta de algumas coisas. Era o tal do novo vizinho. Ele fez questão de agradecer e se justificar. Perdeu a chave do portão em meio à bagunça da mudança. Como a Olívia não sabia de um vizinho novo? Enfim, acontece... Coisas acontecem uma hora outra, alguém costuma dizer. Aquela intensa troca de olhares trouxe a certeza de que aquele “dia favorável” não tinha acabado.

domingo, 16 de dezembro de 2018


O beijo
           
           Distribuir amor e carinho é o que todos deveríamos fazer sempre. Mostrar ao outro que nos importamos e que a presença dele em nossa vida é de grande valor, seria muito mais bonito se pudesse ser sempre lembrando com um abraço apertado, um beijo delicado. Existem também aqueles que tornam a sua presença em nossas vidas mais intensa, repleta de fervor e muita paixão. A esses seres separamos os beijos molhados, suados, entregues a muita intensidade e calor. O calor humano traz acalento aos dias cinzentos. O calor humano traz paz aos corações cansados de sofrer. O calor humano é entrega, é promessa, é espera, é saudade. Quem dera pudéssemos ser calor sem temor. Quem dera pudéssemos nos doar sem medo e sem espera. Mas vamos nos entregar as vontades e aos desejos, as saudades e aos retornos, as partidas e as esperas, ao confirmar do carinho, do importar. Seja com medo, com esperança, fé, seja acreditando que sempre será recíproco. Se não for, por fim, depois daquele tempo, quem perde não seremos nós. Fizemos nossa parte. Seja carinho, seja acalento, um sopro de amor.
            Olívia tenta ser presença de calor e vigor na vida de quem atravessa seu caminho. Sempre muito cheia de sentimento, abraça com delicadeza e força. Mas se tratando de beijo, que pra muitos é levado com simplicidade e deve ser visto da sua força mais simples, ou da forma que melhor nos deixar a vontade e bem. Afinal, beijo é pra ser bom, é pra ser repouso de carinho e afeição. Beijo de amor, beijo de amor, beijo do simples desejo do encontro... Apenas beijo. Para muitos se eu me deparar com quem me desperta paixão, interesse, um beijo sela com prazer e encanto o encontro. Dois lábios dispostos a fazer daquele instante uma memória de carinho. Um carinho guardado para lembrar e reviver, ou um carinho que só o momento presente se faz valer. Não importa. Seja beija, seja o instante, seja a eternidade, guarde quando der vontade. É apenas o corpo transformando desejos e sentimentos em troca. Mas para Olívia um beijo “romântico” seria único. Ela bem que tentou, mas não conseguiu. Encontros regados a interesses espontâneos já não faziam mais sentido. Ela desejava guardar o beijo, reviver e reviver na memória. Ela via o beijo sempre com amor envolvida. Esse é o beijo que a repousa em bem estar. Então ela se guardou, esperou... Fugiu das promessas vazias, dos beijos de instante. Estaria Olívia focada demais em algo que poderia ser simples? Poderia ser isso, ou não. Era sua vontade e ela se via bem assim. Não desejava beijar por beijar e perder a imagem de quem a beijou em poucos minutos. Queria guardar e poder rememorar. Olívia é um ser único, singelo, delicado, romântico e de muita paciência. Se assim estava bom pra ela, quem somos nós pra questionar? Afinal, é o seu corpo, é seu bem querer.
            Numa noite calma, sem grandes promessas, apenas inundada do mais lindo luar, Olívia foi escrever e dividir memórias. Com as amigas de longa data, piquenique sobre a areia fria da praia. Muitas risadas, histórias resgatadas, lembranças revividas e comemoradas. A alegria tomava conta daquele grupo unido de amigas. Todas sempre conheceram bem a romântica e paciente Olívia e a entendiam. Afinal, amigos cobram, incentivam, dão carinho e compreensão, mas sempre entende quem você é e respeitam seus limites. Ali não seria diferente. Elas compartilhavam do mesmo desejo, de ver cada uma delas feliz e bem. O amor reinava naquela noite fresca e iluminada. Abraços quentes e apertados de muitos desejos de felicidades a nova noiva da turma. Mais beijos e abraços genuínos de apreço a recém formada. Incentivos carinhosos a duvidosa que não sabia mais quanto tempo esperar até fazer uma grande mudança. Ah... Muita troca de carinho. Muito amor recíproco e guardado na memória. Estavam felizes, apesar de cada uma guardar seus problemas e anseios. É preciso fazer uma pausa, dividir as preocupações, saber esperar, receber e doar o que tem de bom e ter paciência que uma hora o caminho se ajeita.
            De repente, como num instante em que uma grande estrela brilhou forte no céu, surgiu dentro do coração de Olívia um ardente desejo, meio indecifrável, mas muito requerido. O brilho tomou conta dos olhos daquela doce romântica, que não sabia mais como interpretar seus sentimentos. Era mais um daqueles momentos de desejo e eterna espera. Dessa vez com mais urgência e ansiedade. Era um desejo de ver a vida acontecer com fervor e encanto. Mais uma vez ela aguardaria. Aquela noite chegava ao fim, o grupo se preparava pra seguir o caminho de volta pra casa. Quando que num misterioso instante surge a figura iluminada pela lua, de um rapaz ansioso. Ele parecia esperar por aquele momento tempo suficiente para fazer suas mãos tremerem e seu coração acelerar. Parado de frente para a Olívia ele tentava se apresentar. Guilherme, o nome da figura interessante. A jovem romântica já detinha toda a sua atenção para o jovem ansioso e charmoso. Ele havia aguardado tempo demais distante, apenas observando os traços delicados e o ar cativante de Olívia. Ela queria ficar, conhecer as histórias e memórias de Guilherme. Ela se sentia atraída, fisgada por aquele estranho quase conhecido. Era a magia da noite? Ou o momento do simples relaxamento das pressões e aspirações? Era pra acontecer. Mas ela precisa partir. O estranho tão atraente se aproxima mais e não há instante para ousar pensar, recuar. É preciso se entregar ao momento e experimentar aquela ousadia.
Olívia parecia à vontade, parecia no seu momento de bem estar. Estaria ela se traindo? Ou finalmente se encontrando? Seria o Guilherme memória de instante? Ela não pensava e não se importava. Então o beijo. A mais simples forma de selar um encontro magnético e repleto de desejo. O tempo para, sem pressa, sem pressão. Apenas o beijo. Encontro de dois seres que enxergaram algum carinho terno um no outro e via urgência naquele encontro. Para surpresa do grupo de amigas, Olívia se via levada por aquela deliciosa forma de exprimir uma vontade. Ou talvez eu esteja contaminada pelo olhar romântico da doce Olívia e esse encontro seja apenas um beijo. Ou não. Como saber? Mas precisamos sempre acreditar que um beijo, mesmo que seja instantâneo, também possa ser promessa. É gostoso pensar assim, é gostoso fazer de cada instante memória única. O beijo chega ao fim naquele momento, mas sabemos que será revivido por Olívia com muito entusiasmo. Haverá um segundo, um terceiro? Se houver, que seja sempre assim, único. Para o Guilherme fica no ar a promessa, a espera. Ahhh, Olívia. Sabemos que apesar de ser um beijo, é o beijo. Parece que a espera se fez valente e marca um início. Do quê, ela simplesmente descobrirá e estará pronta para mais uma vez se admirar. Seguirá Olívia sendo única e encarando o mundo com seu jeito particular. O importante é não parar de se entregar, mesmo que o recíproco venha a duvidar. Uma hora vai ser real. Uma hora vai ser seu. E será único.