sábado, 8 de abril de 2017

Novos tempos

Desde que eu e Catarina chegamos ao Rio de janeiro nossa rotina tem sido intensa. Nos primeiros dias tivemos tantas coisas pra organizar. Não trouxemos muitas coisas de Minas, mas em contrapartida compramos muitas coisas aqui. Afinal, compramos um apartamento sem mobília, e simplesmente não podíamos sair carregando os pertences dos nossos pais. A única coisa que trouxemos foram nossos livros.
Quando ainda morávamos lá eu dizia a ela que percebia que havia amadurecido quando eu entrava em lojas de utilidades domésticas e ficava louca para comprar. Aqui não foi diferente. Em cada loja que eu entrava queria comprar algo para o apê. Foram tantas compras. Isso porque temos alguns gostos e preferências diferentes. Por exemplo, eu sempre quis ter um jogo de panelas vermelhas, e Catarina sempre quis um jogo azul, ou seja, compramos os dois, e mais um de inox. O mesmo equivale a jogos de taças, sempre quis ter um vermelho, e Catarina o azul, acabamos por comprar os dois jogos, e mais alguns. Na verdade sei que sempre compraremos jogos de taças. Na loja de cama, mesa e banho foi um pouco mais fácil, já que cada uma comprava itens para seus respectivos quartos. E na loja de enfeites? Tantas coisinhas bonitinhas. Gastamos bastante, afinal, queríamos um apartamento bem a nossa cara, e nada melhor para construir a identidade de um apartamento do que itens de decoração.
Depois que terminamos de organizar o apartamento partimos para um dos nossos maiores sonhos de consumo: nossa biblioteca. Pode parecer que foi fácil montar uma biblioteca, já que amamos livros. Mas não, não foi. Não tínhamos espaço para uma biblioteca muito grande, então tivemos que dar uma peneirada para escolhermos quais livros compraríamos. Mas é justamente aí que estava o problema. Como conseguiríamos escolher apenas alguns livros se simplesmente gostaríamos de ter todos? Foi difícil. Tivemos que fazer uma lista com aqueles que realmente eram prioridades. Mas é claro que sempre que tiver uma promoção compraremos mais.
Quando terminamos de organizar por completo o apartamento, começamos a nos dedicar a nossa rotina oficial. Sempre acordamos às 6:00 da manhã para caminharmos. Confesso que tenho uma vontade louca de desligar o despertador e continuar dormindo, mas como estou num grande processo de mudança, sei que não posso fazer isso. Preciso ter uma rotina fixa de atividades físicas. Além do mais, o Rio não é um local muito adequado para caminhadas depois das 9 da manhã, principalmente para alguém que tem dor de cabeça quando se expõe muito ao sol, como eu. Tem dias que após a caminhada matinal costumamos ir à praia. Coisa de mineiro que viveu anos longe do mar, indo à praia uma vez ao ano. Em alguns dias da semana temos uma atividade física secundária. Catarina vai para o pilates e eu para a academia fazer musculação (odeio puxar ferro, mas depois de perder 20 kg tenho mesmo que fazer). Futuramente pretendo largar a academia e entrar para aulas de dança, já que sou um fiasco no que se refere a dançar. Depois da caminhada e de um bom banho, é hora de trabalharmos. Catarina é repórter de uma revista de moda, e eu escrevo para um site de cultura. Constantemente tenho que ir a lançamentos de livros e filmes, e eu simplesmente amo isso. É tão bom trabalhar com aquilo que se ama fazer. Na verdade encaro meu trabalho como um lazer, já que tenho que falar de livros, filmes e séries.
Geralmente quando não estamos trabalhando tentamos conhecer novos lugares da Cidade Maravilhosa, novos pontos turísticos, pois agora precisamos conhecer bem a cidade que estamos morando. Tento ao máximo possível passar longe de um shopping quando estou na companhia de Catarina, pois senão só escuto “Júlia, olha que sandália maravilhosa, vou ter que comprá-la”, e lá vai mais um par para a coleção de calçados da minha amiga.
À noite costumamos sentar na sala para ver série ou para ler. Agora que Helena, minha amiga de infância, está para se mudar para cá, decidimos que uma vez por semana faremos uma sessão de cinema, com um filme bem açucarado ou bem aterrorizante, acompanhado de muita pipoca. Tentamos não dormir muito tarde, já que acordamos cedo, mas tem dias que a série chega naquele episódio inesperado, ou o livro chega a um capítulo que não é possível deixar de ler no momento, e assim acabamos dormindo tarde, e acordando iguais zumbis no outro dia. Por uma boa causa, é claro.
Ainda não temos uma rotina perfeita. Mas isso faz parte da nossa vida, da nossa mudança. Ainda estamos nos adaptando ao dia a dia na Cidade Maravilhosa. 

quinta-feira, 6 de abril de 2017

A intrusa

Você já se sentiu como se estivesse deslocada e incomodasse alguém? É assim que eu tenho me sentido há três meses. Isso é tão estranho, tão desconfortável. A minha vontade é de sair correndo e me isolar. Sozinha, apenas incomodando a mim mesma. Mas não consigo fazer isso. Eu já me acostumei... Tenho medo da solidão. Tenho medo do que virar depois se eu desistir de tudo e fugir. Mas ao mesmo tempo, não aguento mais. Estou sufocada. Poderia gritar tão alto que a cidade inteira me escutaria. Ah, eu poderia fazer isso sim. Olho para o lado. Lindo, moreno, sedutor, sorriso fatal. Pisca pra mim e depois volta os olhos para a tela do notebook. MU-RI-LO. Pronuncio as sílabas do nome dele em minha mente. Meu namorado. Meu concentrado namorado.
Murilo e eu nos conhecemos através do meu primo, Fernando. Nos apaixonamos de imediato. Não demorou muito e ele me pediu em namoro. Três encontros. Parecia pouco tempo para algumas pessoas. Mas para nós foi o tempo suficiente pra sabermos que queríamos a companhia um do outro. Uma paixão envolvente, uma relação intensa. A cada dia que passava nos sentíamos mais e mais apaixonados. Contei sobre toda a minha vida pra ele, porque eu me sentia a vontade. E ele me contou tudo sobre a vida dele. Continuamos apaixonados, mas aí também surgiu o amor. O sentimento que nos mantinha conectados. Estava tudo perfeito. Éramos um exemplo de casal. Ainda somos para os outros que não nos conhecem intimamente. São três anos de namoro com o Murilo. Três memoráveis anos.
Brigas? Algumas. Brigávamos como grande parte dos casais briga. Por ciúmes e algumas besteiras. No início ele era tão ciumento que eu cheguei a dizer que iria terminar. Depois ele disse que iria mudar e conseguiu. Ainda era ciumento, mas mais controlado. Dava pra aguentar, até porque eu também era ciumenta. No começo também a relação dele com meus pais foi difícil. Não havia motivo nenhum. Apenas protegiam demais a única filha. Foi bastante difícil, mas vencemos isso também. Era paixão, era amor, era um desejo enorme de ficarmos juntos. Com ele eu me sentia segura. Ainda me sinto. Isso não mudou.
Apesar de qualquer coisa, eu o amo. Um amor bonito, maduro. Crescemos juntos. A paixão não é a mesma. Não sei onde a perdemos. Talvez na rotina. Depois do primeiro ano de namoro a paixão também sumiu. Mas em certo dia a encontramos de novo. Não sei explicar. Simplesmente acordamos querendo o outro intensamente. O segundo ano foi o melhor. Com certeza. Nos formamos na faculdade, mais tempo livre. Ele estava menos ciumento. Fomos juntos para Buenos Aires. Boas lembranças... Começamos a fazer planos. O casamento iria demorar, fizemos esse acordo. Primeiro queríamos estabilidade financeira pra construir uma casa do nosso jeito. Não nos importávamos muito com isso. Não tínhamos pressa. Nos amamos, passamos momentos juntos, é isso. Não havia dúvida de que tínhamos pensamentos parecidos. Era fácil resolver as coisas, sempre cedíamos um pouco pelo bem do outro. Acho que é nesse ponto que somos um exemplo para quem olha de fora. Briga e discussão em público jamais. Uma relação invejável.
Mas acabou. Agora eu sinto inveja dos outros casais. Tem seis meses que o Murilo conseguiu um emprego novo, com grandes chances de crescimento. Uma grande oportunidade pra ele. O emprego dos sonhos. Estou muito feliz por ele. Só quero o bem do meu namorado. Do homem que eu compartilho tantas lembranças boas. Mas depois de um mês nesse trabalho ele mudou. E eu também mudei. Nosso tempo juntos diminuiu. Isso eu aceito. É normal. Tenho que apoiá-lo. Ele quer mostrar competência. E ele é muito competente. Eu sentia falta de mais tempo, claro. Mas eu já sabia que no começo seria assim. Um bom emprego para no futuro comprarmos a casa dos sonhos. Era o plano. Mas não falamos mais disso. Não fazemos mais planos. Por quê? Não sei. Não preciso saber.
Era a nossa rotina ligar no final do dia, quando não dormíamos juntos, e falar do nosso dia. Era uma rotina que nos mantinha conectados. Nos últimos meses, mesmo depois de terminar de ver tudo do trabalho, o Murilo não se mostra mais interessado em fazer isso. Eu fico falando 20 minutos seguidos e ele apenas concorda. Depois que eu falo tudo, pergunto como foi o dia dele. Ele diz “foi bom”, “cansativo”, “legal”. Só isso. Até que eu parei de ficar falando sozinha. Uma vez ou outra eu ligo e reclamo de alguma coisa. E quando estamos juntos, a conversa não rende muito. Ele está sempre cansado e todo dia é sempre a mesma coisa. Cheguei a pensar que ele tinha outra. Conheci uma colega de trabalho dele, muito linda e aparentemente interessada nele. No dia que a conheci, e até uns dias depois, fiquei com ciúme, muito. Mas os dias foram passando e eu esqueci que ela existia. O ciúme morreu. Ontem mesmo ele me falou que ela o convidou para o seu aniversário no final de semana. Não consegui me importar.
Eu daria tudo para descobrir o que aconteceu e voltarmos a ser como antes. Eu o amo e acho que ele me ama. Poderíamos dar um jeito de recuperar a paixão e o interesse um pelo outro. Mas não tenho forças. Não mais. Nos últimos meses tenho lutado sozinha. E a relação não é composta só por mim. Me sinto uma intrusa na vida dele. E tem certos momentos que sinto que estou atrapalhando. Eu fico com saudades do corpo dele, do coração, da mente e da voz, então peço carinho. Geralmente ele não recusa, mas é tão estranho. Me sinto carente dele, mas ele não está carente de mim. Pelo menos não demonstra. Me sinto abandonada, vazia, sozinha numa relação de duas pessoas. Mas tenho medo de terminar e piorar. De me sentir mais vazia sem a presença dele.
Ele se levanta e vai até a cozinha. Olho para o meu namorado e sinto dor. Quero carinho. Quero que ele me escute e que fale comigo. Quero que compartilhe sua vida comigo, como antes. Ele volta. “Renata, meu amor, você está assistindo televisão?” Ele me pergunta. Fiquei perdida em meus pensamentos que até me esqueci de prestar atenção no filme. “Vou desligar, não estou assistindo mais”. Desliguei. Ele está bebendo uma taça de vinho e trabalhando com algum projeto do escritório de advocacia. Por que deixamos isso acontecer? Era tão bom... Agora que eu percebo que ele não me ofereceu o vinho. Ele sabe que eu amo vinho. Parece delicioso. Isso não pode continuar. Cansei de ser a intrusa. Cansei de estar sozinha ao lado dele. Não dá pra piorar. Eu o amo sim. Mas não posso viver só do meu amor. E eu não consigo mais lutar por isso SO-ZI-NHA. Novamente pronuncio mentalmente as silabas de uma palavra. Pego a taça de vinho da mão dele. Ele me encara e não fala nada. Dou um longo gole e me levanto. “Vou embora, Murilo. E acabou para nós. Obrigada por esses três anos. Nunca vou te esquecer e nem deixar de te amar. Mas não quero viver sozinha essa relação. Cansei de ser uma intrusa na sua vida. Depois que você estiver com menos obrigações no trabalho nós conversamos. Eu vou mesmo voltar. São três anos, precisamos conversar. Mas acabou. Te amo. Até logo!” 

terça-feira, 4 de abril de 2017

Uma chance ao amor

Aos 36 anos de idade minha vida era totalmente estabilizada. Estava casada com o Marcelo há 18 anos, tinha uma filha e estava realizada profissionalmente. Cursava meu doutorado e era professora de ensino médio em uma escola de ensino técnico integrado. Tudo estava caminhando perfeitamente bem, até que uma crise no meu casamento mudou toda minha vida, e todos os rumos dela.
Depois de seis meses separada do meu marido, decidi que era hora de recomeçar minha vida, sair e conhecer pessoas novas. Emily, minha filha de 17 anos, já era uma moça, estava se preparando para prestar vestibular, ou seja, já não dependia muito de mim. Faltando dois meses para o término do ano letivo tive que assumir uma nova turma, pois a professora havia saído de licença, e foi lá, naquela turma, que cometi uma das maiores loucuras da minha vida. Envolver-me com um aluno.
Caio tinha apenas 18 anos e era sobrinho de minha melhor amiga. Desde a primeira vez que coloquei os pés na sala de aula daquela turma, percebi que o rapaz não tirava os olhos de mim. Não eram olhos de um aluno interessado na aula, mas sim de um rapaz interessado na mulher que estava a sua frente. No início eram apenas olhares durante as aulas, mas à medida que os dias foram passando as investidas dele foram se intensificando. No término das aulas Caio era o último aluno a sair da sala, e sempre se oferecia para carregar materiais que eu levava para a classe, só para estar sozinho ao meu lado por um tempo. Aquela situação me deixava perturbada, eu achava o máximo aos 37 anos ser desejada por um rapaz de 18, era uma recarga de vaidade em minha autoestima abalada pelo término do meu casamento. Era uma situação contraditória, pois era bom me sentir desejada daquele jeito, mas eu sabia dos riscos que corria ao envolver-me com um aluno. Além disso, eu conhecia a família dele muito bem, e sabia exatamente qual seria a reação deles se eu me envolvesse naquela loucura.
  Eu tentei de todas as formas resistir aos encantos daquele moreno lindo, tentei colocar na minha cabeça que ele tinha idade para ser meu filho, que era meu aluno. Tentava manter distância dele, mas parece que o destino queria nos unir. Uma certa noite resolvi sair com algumas amigas para espairecer, dar uma relaxada. Estava tudo caminhando bem, até que vi meu problema atravessar a porta da danceteria onde eu estava. Ele foi se aproximando e eu me afastando, mas quando ele exibiu aquele sorriso devastador fui incapaz de resistir. Ele me beijou de uma forma que há muito tempo eu não era beijada, com tanta paixão, com tanta necessidade, parecia que para ele o mundo acabaria depois daquele beijo. Num ato de extrema loucura acabei passando a noite com ele, uma maravilhosa noite. E na manhã seguinte quando disse a ele que aquilo não iria mais se repetir, ele respondeu que não aceitaria aquele não, porque estava apaixonado. Meu único instinto foi sair correndo para casa.
Nos dias seguintes fiz o possível para evitá-lo, mas aquele beijo, aquela noite maravilhosa não saiam da minha cabeça. Depois de muito pensar acabei contando a situação para Mônica, minha amiga que era tia dele. Ao contrário do que eu imaginava, Mônica me apoiou. “Renata, o Caio não é mais uma criança! Já é maior de idade, responsável por seus atos. Se joga amiga, seja feliz!”. Pensei naquele assunto por muitos dias, e depois de muita insistência por parte de Caio, acabei saindo com ele outras vezes. Ao final do ano letivo assumimos nosso namoro. No início foi difícil, tivemos de enfrentar os olhares preconceituosos da sociedade, os comentários maldosos de que ele deveria ser o namorado da minha filha, e não meu. Até mesmo Emily, que sempre estava ao meu lado, me repudiou no início, dizia que eu estava louca. Mas o amor que meu “menino” demonstrava me fazia enfrentar e lutar contra tudo. Eu me sentia amada como nunca antes, nem mesmo Marcelo me amou assim.
Foram dois anos de muito amor e aprendizado. No final desse tempo decidi que era hora de cada um seguir seu rumo. A vida de Caio estava apenas começando, e a minha já estava bem adiantada. Ele era jovem, era louco para ser pai, e esse era um desejo que eu não tinha certeza se um dia poderia realizá-lo, por causa da minha idade. Ele me dizia que não se importava, que poderíamos adotar uma criança, que tudo caminharia certo, desde que eu estivesse com ele. Tentei argumentar de diversas formas que eu não era a melhor opção para ele, e quando disse a ele que não podíamos mais continuar, fui surpreendida com um pedido de casamento. Quando achei que nossa história estava acabando, realmente estava apenas começando. Seis meses depois nos casamos, e após dois anos tivemos nossa filha. Nossa família não parou por aí, e nos anos seguintes adotamos mais duas crianças.
Agora vejo que minha vida aos 36 anos não era feliz como eu imaginava, eu tinha uma estabilidade, não felicidade. Agora sim, aos 52 anos, sou extremamente feliz. Tenho um marido que apesar dos anos continua me amando, terminei meu doutorado e agora sou professora universitária, sou mãe de três filhos que amo muito, e para completar tenho duas netinhas que enchem meu coração de alegria. Às vezes fico imaginando como estaria minha vida agora se eu não tivesse encarado meus preconceitos e me dado uma nova chance, uma chance ao amor.

domingo, 2 de abril de 2017

Um ato de amor

          Certas coisas acontecem nas nossas vidas e não existe uma explicação. Simplesmente acontece. E até hoje não consegui entender a minha facilidade em me apaixonar por homens errados. O último cara com quem eu me envolvi tinha namorada. Eu não sabia. Como posso ser tão burra? E como ele consegue fazer isso com a namorada? Eu não entendo. Se você está com alguém, não existe nenhum motivo que justifique procurar outra pessoa. Se a relação não está boa, apenas termine. Assim evita o sofrimento futuro. Eu realmente não entendo as pessoas. Até quando eu apenas fico com alguém, não consigo ficar com outra pessoa. Talvez a errada seja eu. Mas felizmente aquela paixão que eu sentia pelo senhor safado, que prefiro nem lembrar o nome, passou. Tudo com a ajuda de uma nova paixão. Amor, na verdade. Ontem ele me falou que me ama. Lucas, meu anjo, meu amigo.
            Sim. Eu o amo. Muito. E sinto que é diferente. Eu sei que é diferente de tudo que já vivi. Meu coração acelera só de lembrar o nome dele. Eu arrepio com a imaginação do nosso beijo. E quando ele me toca o mundo para. Eu me sinto segura, amparada, amada. Conheci o Lucas há dois anos, quando fizemos uma matéria em comum na faculdade. Durante as aulas éramos parceiros, fazíamos todas as atividades juntos. De colegas para amigos. Uma linda amizade a nossa. Quase todas as semanas saíamos juntos ou íamos um para a casa do outro. Eu contava sobre os desastres amorosos da minha vida e ele me contava sobre a vida dele. Sempre nos vimos apenas como amigos. Não sei explicar como isso mudou. Só sei que depois de uns meses, a nossa relação se tornou mais intensa. Eu não me sentia mais a vontade em contar certas coisas. Eu não podia vê-lo que me dava vontade de sorrir. E eu sei que com ele também foi assim. Já conversamos sobre isso. É tão bom ser amiga dele. Me sinto bem para falar qualquer coisa com ele. Nos entendemos, nos apoiamos, nos amamos.
            Tenho muito medo de o nosso namoro atrapalhar a amizade. Se isso não der certo, posso perdê-lo. E isso não pode acontecer. Antes de amá-lo como homem, o amo como amigo.  O que temos é tão forte, é tão verdadeiro, que não pode se perder. Mas isso não vai acontecer. Vamos ser amigos para sempre. Eu amo o Lucas. E quando ele me beija eu sinto que ele também me ama. Isso tudo só pode ser mentira. Não acredito. Nunca estiver tão feliz como agora. Que medo. Mas o conheço como amigo e é uma pessoa maravilhosa, um ótimo companheiro. Como namorado também sei. Conheço a história do último namoro dele. Não terminou muito bem. A ex dele foi fazer intercâmbio e decidiu terminar. Eu não entendi porque a Vitória fez isso. Eu nunca faria isso. Eles se davam muito bem, se amavam. Isso pode ter ajudado na nossa aproximação amorosa. Ele terminou na mesma época em que eu descobri sobre o boy safado (aquele que namorava). Choramos juntos. Reclamamos juntos. E hoje nos amamos. Namoramos há três meses. Não é muito tempo, mas já é intenso, é muito forte. Estou feliz, muito feliz.
           Penso nele o dia todo. Como isso é possível? Como posso estar amando tanto? Tenho medo. Mas me sinto bem, quando penso que estamos bem. Será que temos futuro? Sei da vontade dele de mudar de cidade. Eu também quero isso. Temos tantas coisas em comum. Parece mentira, porque é tudo muito bom pra ser verdade. Falo isso por causa do meu histórico amoroso. Sempre amei sem ser amada. Não quero pensar nisso, nem no futuro. A vida é incerta. E às vezes nos pega de surpresa. Antes nunca me imaginaria namorando o meu amigo Lucas e agora estamos nessa. Eu o amo. É só pensar nele que ele aparece. Meu telefone está tocando. É ele, é o meu amor... “Paula, meu anjo, precisamos conversar. Estou indo para a sua casa agora.” Ele parece tão sério. Estou com medo. Ele não é assim...
            “Minha linda, a Vitória voltou. Ela foi me ver hoje.” Ele fala e eu já sei o que vem a seguir. Vamos ter problemas. Sabia que era bom demais... “Você precisa saber que eu te amo. De verdade. Te amo como amiga e como mulher.” Será que esse amor é suficiente pra ele? Estou calada, não consigo falar nada. Meu coração já está sentindo... Não, que meu coração esteja errado. Não quero perdê-lo... Estou suando frio. Me sinto desamparada, sozinha. Parece um pesadelo. Ele está dividido. O meu amor ainda ama a ex. Não acredito que isso está acontecendo comigo. O homem que eu amo... Ele ama a outra. Estamos chorando juntos de novo. “Eu te amo, Paula. Não quero perder você, nem perder tudo que construímos juntos.” Não posso me esquecer da nossa amizade. Ela é tão linda, tão forte... Tenho que separar as coisas. É tão difícil. Por mais que eu o ame, vou me sentir a pior pessoa do mundo se impedir a verdadeira felicidade dele. Não posso ser egoísta. Ele precisa do meu apoio. Sei que ele não vai conseguir. Tenho que fazer isso por ele, por nós. Devo isso à nossa amizade. Eu o amo e quero vê-lo feliz.
            “Eu te amo muito Lucas. E por tudo que vivemos juntos, por nossa amizade e por esse amor, quero que você se sinta a vontade para recomeçar uma relação com ela.” Não acredito que falei isso. É o certo. Eles se amam. Não posso mudar isso. Ele está sem palavras. “Eu falo sério. Eu te amo, mas vocês também se amam. Não quero te prender se o seu grande amor é ela e não eu. Pode ficar tranquilo. Siga o seu coração.” Meu coração dói muito, mas fiz o certo. Isso vai passar, tem que passar. “Não queria que isso estivesse acontecendo, meu anjo. Não quero te perder.” Ele fala e só sinto dor. O coração sofre, mas ele também sabe que vai passar... Pode demorar, mas vou conseguir superar isso. “Eu sempre vou te amar. Não quero perder a nossa amizade.” Sorrio, sem querer. Preciso ficar firme, preciso ser positiva. “Nossa amizade é forte demais para acabar assim, Lucas. Mas vou precisar de um tempo.” Ele me abraça e eu fico arrepiada. Seguro as lágrimas. Não posso chorar. Não agora. “Eu te entendo. Isso é um ato de amor. Até breve, meu anjo.” Ele fecha a porta e as lágrimas descem. O meu amor se foi. Essa dor tem que passar...
             Já tem um mês que estou sozinha, sem ele. Ainda o amo. Ainda choro. Mas parei de chorar todas as noites. Ele é a pessoa que mais amei, que mais me amou. Mas fiz o certo. Minhas amigas me julgam, dizem que sou burra. Talvez eu seja mesmo. Mas não poderia viver feliz sabendo que tem uma pessoa que ele ama mais que a mim. Não seria bom pra mim nem pra ele. Fiz o certo. Tento colocar isso na minha cabeça todos os dias. Preciso ser forte, vou superar... Não o vejo desde aquele dia. Ele me manda mensagens e eu respondo. Mas não conversamos como antes. Espero que quando essa dor passar, nós possamos voltar a sermos amigos como antes. Sinto muita falta dele. Sinto falta do meu amigo, do meu cúmplice, do meu amor. Não. Ele não é mais o meu amor. Preciso tirar isso da cabeça. Mas continua doendo. Ainda o amo como amigo e como homem. “Paula, meu anjo.” Que susto! Ele está atrás de mim. Estou tremendo, mas não de medo. Meu coração está acelerado. O Lucas está me encarando. Todos os nossos momentos juntos vêm a minha cabeça. Tenho que ser forte. “Aquele dia eu não pedi desculpa. Sinto muito por fazer você sofrer. Mas eu também sofri. Ainda sofro. Sinto sua falta.” Perca as palavras. Não sei o que responder. Ele toca a minha mão. Esse toque... “Desculpa, meu anjo. Eu estava muito confuso...” Que vontade de chorar, mas preciso me mostrar forte, bem. Mas não estou bem. “Não é certo, não é justo. Mas ainda te amo. Te amo como amiga, te amo como mulher.” Não é justo ele falar essas coisas. Voltou a doer, muito. Por quê? “Eu também te amo.” Digo, porque é verdade. “Eu não amo a Vitória. O meu grande amor é você.”


           



sábado, 1 de abril de 2017



Amizade pra vida toda

Depois de um exaustivo dia de trabalho Bruna se sentiu feliz por chegar em casa e tomar um demorado banho quente. Depois se sentou no sofá para ver TV, e aproveitou para responder a mensagem que sua amiga Vanessa havia lhe enviado no whatsapp. Olhando para a foto de sua amiga na tela do telefone percebeu o quanto sentia falta de sua velha companheira de infância, foram tantas coisas vividas ao longo de 25 anos de amizade.  
Bruna e Vanessa são amigas desde que Bruna nasceu, quando Vanessa tinha apenas seis meses. Sempre foram vizinhas, e à medida que foram crescendo a amizade foi se fortalecendo. Não se separavam por nada, e justamente por isso as melhores lembranças que Bruna tem de Atibaia, sua cidade natal, são ao lado da melhor amiga. Quando estavam terminando o ensino médio decidiram tentar vestibular em uma universidade de Campinas, e isso garantiu mais cinco anos de parceria e companheirismo entre as garotas. A separação veio depois da formatura, quando Bruna conseguiu uma vaga de advogada em São Paulo, e Vanessa decidira voltar para Atibaia e trabalhar como arquiteta em uma construtora na cidade. Mas nem mesmo a distância física rompeu os laços de amizades, já que se falam ao telefone todos os dias, e sempre que a jovem advogada vai a sua cidade natal para rever sua família, vai correndo reencontrar a amiga.
Apesar da grande amizade, as jovens sempre tiveram personalidades diferentes. Bruna sempre fora mais tímida e mais quieta, dificilmente trocava os filmes por uma noite de sábado na balada. Já Vanessa sempre fora mais desinibida, mais animada. Ao contrário da amiga que começara a namorar cedo, Bruna sempre tivera mais dificuldade em lidar com o sexo masculino, tanto que seu primeiro beijo fora aos 14 anos e seu primeiro namorado, e agora noivo, só acontecera aos 22 anos.
Ainda olhando para a foto da amiga, um sorriso brota nos lábios de Bruna ao se lembrar que seu primeiro beijo só acontecera graças ao empurrão da amiga, já que lidar com os garotos sempre foi difícil por causa de sua timidez. Sorria também ao lembrar que a amiga também é responsável por seu noivado, já que desde que Vanessa conhecera Leonardo, o melhor amigo de seu namorado Rodrigo, vivia buzinando em sua cabeça que aquele rapaz era o namorado perfeito para ela. E numa noite de sábado que Bruna planejara passar estudando, Rodrigo chegara a sua casa acompanhado do amigo, e entre uma cerveja e outra, Rodrigo e Vanessa deixaram-na sozinha com Léo para que se conhecessem melhor. A conversa fluíra tanto que, agora, três anos depois, o casal vive conversando sobre casamento, planejando todos os detalhes.
Bruna é tirada de suas lembranças ao ouvir a campainha tocando. Quando abre a porta não acredita no que vê, Vanessa decidira fazer uma visita surpresa a amiga. Depois de um forte abraço para matar as saudades, as amigas se sentam para começar a planejar a noite. Uma noite que será regada a filmes, pipoca, chocolate quente e muitas fofocas.