segunda-feira, 13 de junho de 2022

 

Sua voz


            Em toda a minha vida, eu tive claro em minha mente que eu sempre serei o meu maior suporte, o meu maior conforto e amor. E assim sigo até hoje. Essa ideia não mudou e se mantem firme aqui dentro. Apenas um detalhe tem mexido com meus neurônios: sua voz. Sim, uma voz tem me desconcertado e invadido os meus pensamentos. Mais que isso. Tem invadido o meu coração e mexido com todas as minhas emoções. Não, eu não preciso dessa voz e, muito menos, do corpo dono dessa voz. Não preciso! Posso viver sem. Claro que eu posso viver sem ela. A questão é que eu não quero. Eu quero continuar com os neurônios abalados por causa de uma voz. Eu quero estar perto, ser tocada por suas mãos, beijada por seus lábios e ter todos os pelos do meu corpo excitados pelo som da sua voz falando baixinho no meu ouvido.

            Agora me escute, por favor: não é questão de dependência, necessidade e, muito menos, vício. É apenas uma questão de conforto, excitação e sentimento. Só não me peça para nomear esse sentimento. Eu arrepio só de imaginar. Meu coração bate muito forte. Eu contraio os meus lábios enquanto uma de minhas mãos alisa o meu pescoço. Imagino você aqui. Respiração ofegante. Meu coração bate ainda mais forte. Posso escutar sua voz no fundo da minha mente. Meu coração está agitado. Não posso nomear esse sentimento. Não tenho palavras suficientes para descrever tudo o que sinto, logo eu que sou cercada pelas palavras. Não sei o que acontece, mas quando penso em você me falta vocabulário. Se é medo, autopreservação, não sei. Só sei que há muito aqui e por todo o canto do meu corpo. Sua voz me preenche de uma forma que eu jamais vou esquecer.

            Quatro letras, uma intensidade absurda e, da melhor forma possível, enlouquecedora. Basta a sua voz para eu sentir que é possível, que é único e especial. Sua voz sempre vai despertar todo a excitação presa no meu corpo. E é assim, só de imaginar eu me arrepio por inteira. Então, sim, eu escolho sua voz, seu corpo e todos as sensações e sentimentos envolvidos. Mas não, eu não vou te colocar em primeiro lugar. Não vou esquecer o meu combinado, a minha missão de amor próprio. No entanto, estou aqui (você sabe onde). Estou aqui, estou sempre aqui disposta a te escutar e deixar a sua voz mexer com todo o meu corpo, minha mente e o meu coração. Mas escute: eu amo a sua voz, mas apenas ela já não é suficiente.

domingo, 15 de maio de 2022

 

Criaturas misteriosas


            O que buscamos? Como buscamos? O que esperamos? O que estamos dispostos a fazer? O que estamos dispostos a arriscar? Independente das respostas, a verdade é que somos confusos e estamos perdidos neste mundo enorme e repleto de possibilidades. Quando, finalmente, sentimos, depois de muito procurar a tal da faísca, fugimos. Nós, simplesmente, fugimos daquilo que sentimos. Fugimos dos sentimentos. Fugimos do outro amado e de tudo aquilo que vem junto. Bota confusão nisso. Temos medo. Temos medo de nos expor. Temos medo de sofrer. Temos medo de não dar certo. Temos medo das incertezas. Temos medo dos grandes e lindos sentimentos. Mais do que apenas numa relação amorosa, porque também acontece nas relações de amizade. Temos medo de acabarmos dependentes do afeto e do conforto do outro. Temos medo de sermos decepcionados. Porque, infelizmente, é isso que o ser humano faz com frequência: decepciona o seu semelhante.

            Mas ainda seria viver? Podemos chamar de viver quando deixamos de sentir efetivamente o que habita o nosso coração? Sei que o medo nos impede de coisas incríveis. O medo já me impediu de coisas incríveis. O medo me deixou habitando por muito tempo a minha zona de conforto, aquele lugar que nada de extraordinário acontece. Mas eu quero viver o extraordinário. Eu quero sentir o incrível. Eu quero ter aquela sensação única de estar à beira de um abismo excitante. Se eu vou cair ou voar, eis a questão. Eu posso despencar e sentir muita dor. Mas eu também posso me jogar e ganhar asas. E ainda pode acontecer de eu encontrar um outro alguém voando ao meu lado. Eu quero viver a excitação do abismo do sentimento. No entanto, tenho medo. Muito medo. A maioria de nós tem esse medo. E se eu me jogar sozinha? E se eu sentir sozinha?

            A verdade é que somos criaturas misteriosas, repletas de desejos, sonhos, medos das expectativas e das tentativas. Somos criaturas rodeadas por sensações, impulsos e, muitas vezes, arrependimentos. Nos doar, nos expor e deixar o outro atravessar a nossa zona de conforto, é uma missão dificílima. Começa com uma grande questão: posso confiar nessa pessoa? Questão complexa, resposta difícil. Muitas vezes a confiança que depositamos em alguém pode ser quebrada após uma decepção e isso dói demais. Como saber que posso confiar? Não existe uma resposta certa e única. Afinal, cada um sente e vive de um jeito único. Eu, por exemplo, busco seguir o meu coração e a minha intuição. Ele, simplesmente, sente que a pessoa é especial, confiável e merece a minha confiança. Superado isso, outra questão: até que ponto posso me abrir? Uma terceira: até que ponto posso sentir? Uma quarta: até que ponto posso me arriscar? E, a quinta: até que ponto posso viver? São apenas algumas, das inúmeras questões que surgem quando estamos diante do outro, seja qual for a sua relação com ele.

            Criaturas misteriosas, de sentimentos e agires misteriosos. Sentimos, mas nos limitamos diariamente, nos impedindo de habitar abraços e beijos. Sentimos, mas não voamos para perto do nosso amado por medo. Temos sonhos, objetivos excitantes, mas o receio do erro nos puxa para trás e não seguimos adiante. Pobre criatura misteriosa, que muito sente, mas pouco faz e se arrisca. Pobre criatura misterioso, poderia ter um mundo inteirinho brilhando em seu coração, mas prefere não dar um passo diante do incerto. Entendo. De certo modo, entendo. Já fiz isso. Só não dá para habitar a zona de conforto para sempre. Quantos abismos extraordinários perderemos até entender isso?

           

segunda-feira, 25 de abril de 2022

 

Cheirinho de afeto


Aaah, esse aroma inebriante, que me faz suspirar, me traz conforto e balança todas as minhas estruturas. É um aroma gostoso, envolvente, viciante, totalmente abrasador. Eu poderia, simplesmente, ficar assim, o dia inteirinho, apenas aproveitando desse aroma, que me consome por inteira. É único, é sincero, verdadeiro e para mim. Sim, é um aroma que me faz sentir que é certo e possível. Há medo? Sim, como tudo na vida. Mas há uma força inexplicável envolvida, que me incentiva a ir além e correr atrás do “impossível”. No entanto, para uma mente e um coração tocados pelos sonhos, não existe isso de impossível. Se tem o querer, se tem as condições favoráveis, se corremos atrás para superar as dificuldades, então me parece bem possível. Claro que nada é perfeito, então existem alguns fatores que preciso levar em conta. Mas os sinais... Aaah, os sinais... Eles indicam que eu posso voar, que eu posso suspirar e aproveitar desse delicioso aroma. Tanto que se encontrar comigo e eu não te ver, tenha certeza de que estou num dos meus inúmeros momentos de abstração, uma viagem pelas minhas memórias, aproveitando cada faísca desse intenso aroma em minha mente e em meu coração. Pois bem, um momento de energização, quando sinto que estou viva e posso tudo, mesmo que isso também me deixe vulnerável às decepções e erros mundanos.

Vocês devem me achar uma louca por me aventurar no incerto, na loucura que é sentir neste mundo tão injusto. Vocês devem achar que sou inocente demais por acreditar no melhor das pessoas e naquilo que sinto e acredito que o outro sente. Seja loucura, seja inocência, tanto faz, dê o nome que quiser, eu prefiro acreditar, eu prefiro sentir. Eu prefiro me inebriar nesse delicioso aroma que paira no ar todas as vezes que eu penso ou que tenho um vislumbre de sua figura em minha mente. Eu prefiro acreditar que é possível, mesmo que para isso eu precise me agarrar e me forçar a colocar os pés de vez em quanto no chão. Sim, eu me chamo para a realidade, mesmo suspirando com as estrelas. Afinal, se eu me perder em meio as dificuldades e tristezas do dia a dia, nada sobrará de mim. Nada de mim poderá brilhar, porque sou feita de encantos, de sonhos e luta. Tenho medos, tenho inseguranças, receios, e várias reticências, mas luto minuto a minuto para continuar acreditando que sentir é possível, que o belo, o leal, o justo, o verdadeiro, sincero e recíproco também é possível. Eu luto contra meus pensamentos cansados e negativos, luto contra o pessimismo alheio, contra as curvas e contra os contratempos. Só não conseguiria lutar contra esse cheirinho de afeto que me faz suspirar. 

 

quinta-feira, 21 de abril de 2022

 

Dois corações


            Será que é possível? Será que é certo? Será que é justo? Será que alguém realmente conseguiu gostar de duas pessoas ao mesmo tempo? Isso realmente pode acontecer? Eu tenho algumas teorias, várias dúvidas e a mente e o coração divididos para essas e outras perguntas. Há quem diz que se você se apaixonou por uma segunda pessoa é porque você realmente não gosta da primeira. Sim, isso pode acontecer, mas acredito não ser uma verdade universal. Para casos assim eu tenho uma teoria, dentre várias, que também não é uma verdade universal. Eu penso que qualquer relacionamento passa por fases. Há momentos de paixão, excitação, conquista, admiração, sossego e até frieza. Afinal, falamos do ser humano. Então, se você está apaixonada por uma pessoa e acaba envolvida por uma segunda, algo está acontecendo de errado entre você e a primeira. Pode acontecer do amado estar frio, não estar te valorizando, subestimando o carinho que você tem por ele ao se fazer muito tempo ausente. Claro que se você não estiver satisfeito com a forma que o outro te trata, você deve falar e esclarecer as coisas, entender o motivo da frieza e da desvalorização. Mas sabemos que falar é fácil, na prática não é tão simples. Deveria ser, na verdade. Não é. Existem as inseguranças, o medo e tantas outras questões que impedem o diálogo e assim esclarecer a relação, seja qual for. Então, neste momento, muitos podem ficar vulneráveis, carentes e com o coração sensível. Este último é o mais perigoso. Porque se o coração sentir que quem o habita não está valorizando seu sentir, ele ficará mais vulnerável e, de certa forma, aberto para outras pessoas. Isso é certo? Pra mim, não. Mas há situações difíceis de controlar, ainda mais quando há insegurança e medo, mesmo que estes sejam “sem sentido” para o outro. Por isso e, tanto mais, um coração pode ficar encantado por uma segunda pessoa, ainda mais se essa pessoa for sempre presente e oferecer o que o primeiro amado não pode ou não quer dar. Não digo que será um sentimento ou paixão na mesma intensidade. Não tem como gostar igual de duas pessoas, isso sim me parece impossível. Porque o gostar, a paixão e o amor surgem a partir do acumulo das simpatias das qualidades, defeitos e atitudes do amado. O sentimento pelo segundo pode ser maior que pelo primeiro? Também acredito nesta possibilidade. É tudo uma questão do quanto o coração está cansado de sofrer com o primeiro amado e de como o segundo irá se comportar. Claro que tudo que falei não se aplica a todas pessoas. É apenas uma dentre diversas possibilidades. Cada ser humano sente e age de uma forma. Há quem que mesmo com o coração machucado pelo amado não consegue enxergar nenhuma outra pessoa por muito tempo. Há quem possui um coração ou mente bem grandões, com espaço para distribuir afeto para três, quatro pessoas. Há quem guarda o amado com tanto carinho no coração que não ousa nem pensar em outras possibilidades. Ainda há quem está apaixonado e tem medo de sentir ainda mais, aí acaba distribuindo afeto às outras pessoas. Deste último eu tenho dó, afinal, por medo, com certeza, irá perder o seu grande amor. E, por fim, ainda possuo mais um tanto de teorias, dúvidas, medos, inseguranças. Como se apaixonar, amar e distribuir o afeto se o amado não permite? Resta apenas arriscar, errar, tentar mais uma vez e sempre se lembrar de se amar em primeiro lugar - aí está um amado que pode habitar o seu coração com tranquilidade enquanto gosta de outra pessoa.

terça-feira, 12 de abril de 2022

                    

Pobre coração



Das coisas mais belas da vida, ter um coração que sente, que pulsa, que saltita de emoção e ama, é uma dádiva. No entanto, o coração não é racional, não sabe bem onde colocar seu afeto. Ele pode até ter uma intuição, uma vontade que ancora no ser amado, mas isso não é garantia de nada. O coração erra, o coração aprende, mas aprende depois de muita dificuldade. Mesmo assim, há momentos em que ele insiste em perseguir uma direção, ainda que todos os sinais apontem para a decepção, para o erro. Por que? Por que seguir no caminho errado, mesmo ficando tão claro? Uma possibilidade é aquele fio de esperança de que tudo e todos estejam errados e que a qualquer momento algo magnifico irá acontecer a favor do coração. É, bem longe de ser racional, bem longe de ser o certo e o ideal. Mas além de irracional, o coração pode ser teimoso, e ainda pode ter medo da mudança, de ficar longe do amado tão conhecido. Não apenas o órgão mais importante do corpo, a mente também tem dificuldade de sair da zona de conforto, mesmo que não seja um lugar tão confortável assim. No entanto, quando a mente aceita que precisa ter a mudança e quer se desprender daquilo que não faz sentido, há uma chance. O que não dá é para o coração e a mente insistirem juntos no erro. Sim, eles vivem insistindo no erro, naquela iludida esperança de que sentir naquele momento vale a pena. Então é uma tarefa extremamente difícil fazer a mente e o coração aceitarem a mudança e pararem de insistir no amado errado (ou no objeto/situação errado). Como é difícil! Como é complicado espantar da mente as memórias tão gostosas e estimulantes, que nos fez sorrir com todo o corpo e ter prazer pela espera, pela realização. Como é difícil abandonar aquilo que parece tão real, certo e próximo da nossa pele, que nos faz arrepiar. Pobre coração, não possui um botão que o afaste do amado errado. Pobre coração, não tem critérios racionais para escolher onde repousar seu afeto.