Sorria
”Levanta, toma um banho, toma aquele
café, bota um sorriso no rosto e vai encarar a vida. Busque pelo o que você
mais deseja”. Sim, é um bom conselho. Muitas pessoas dão este conselho. Eu já
dei este conselho. Não é dos piores. Um bom café preto é bem-vindo. Levantar da
cama é uma história bem diferente. Sorrir? Hoje? Você precisará fazer um
esforço um pouquinho grande. Sorrir? Agora? Nem um palhaço me faria sorrir genuinamente.
Nem você, meu amor, sendo o palhaço me faria dar uma gargalhada. Logo eu, que
adoro rir do acaso, das besteiras da internet, do vento... Rir com você... E eu
sei como você adora isso, a sua ”adorável riso frouxo”.
Ela está aqui em algum lugar, quietinha, adormecida. No lugar dela estou somente
eu, a ”sua pessoa”, aquela mulher repleta de defeitos, manhas, quereres desproporcionais...
Aquela que às vezes, muitas vezes, se sente só e perdida. Totalmente perdida
neste mundo louco, cheio de outras pessoas perdidas e estranhas. Não é fácil
ser uma pessoa estranha neste mundo bagunçado. O que me faz ser assim? Por que
tantos quereres distantes? Impossíveis?
O que há de errado comigo? Por que
querer tanto? O mundo nunca foi justo. O mundo nunca será justo? Odeio ser
pessimista. Odeio enxergar tanta feiura quando já enxerguei tanta beleza. Há
beleza. Claro que há. Eu já vi, e ainda vejo, a beleza. Mas hoje... Hoje,
simplesmente, está feio e ruim. Por que não poderia ser sempre belo? Por que
não poderia ser apenas sorrisos e afagos? Um carinho cairia bem, muito bem.
Quem sabe eu enxergue novamente a beleza. Eu sei que há em algum lugar. Pode
ser gostoso. Pode ser lindo. Pode ser justo. Mas hoje não é. Hoje não é o que
eu queria. ”Apenas sorria e vá”, minha cabeça insiste em me dizer. Mas para
onde irei? Onde poderia ser apenas belo e gostoso, a ponto de arrancar do meu
rosto o mais genuíno dos sorrisos? Quero sorrir. Quero enxergar o belo. Quero
ir. Para onde? Preciso saber onde.
Neste momento, a cama parece confortável.
Não há julgamentos. Não há olhares. Não há feiura. Só há a minha cama quente e
eu. Sozinhos em meio as lágrimas. Sozinhos em meio a um milhão de pensamentos.
Não é belo. Não me faz sorrir. É apenas confortável. Parte de mim, uma grande
parte, quer ficar. Enrolada em meu edredom, longe dos perigos do mundo e bem
distante de outras decepções. Não sorrio, mas também não encontro outras fontes
de mais lágrimas. Já há mais que o suficiente de lágrimas em meu rosto. Estou
inchada o suficiente para saber que não aguento mais. Só queria a beleza... Só
queria a segurança... Seus braços, talvez. Não precisa ser o palhaço. Não tente
me fazer sorrir, mesmo querendo ver o meu riso frouxo. Seja apenas a minha
segurança em minha cama. Hoje, apenas esteja aqui. As coisas não estão bem.
Talvez amanhã eu sorrio. Hoje, um abraço me fará bem.